Notícias

Entre a roça e a gestão, Kelly Batista lidera produção de tomate com visão de futuro

Entre a roça e a gestão, Kelly Batista lidera produção de tomate com visão de futuro

13 março de 2026

A trajetória de Kelly Batista no agronegócio não foi exatamente planejada. Filha de uma família com quatro gerações ligadas ao mercado de hortifrúti, ela cresceu acompanhando o trabalho do pai no setor, mas imaginava que sua contribuição dentro da empresa seria diferente. 


'Sempre pensei que trabalharia no escritório da empresa, talvez na área administrativa ou contábil, ajudando meu pai. Não imaginava que estaria na roça, lidando diretamente com a produção de tomate', relembra.


Formada em Agronomia em 2007, Kelly acabou assumindo justamente o espaço que ainda precisava ser estruturado dentro do negócio da família. Na época, o Grupo Batista ampliava sua atuação, deixando de atuar apenas na comercialização para também produzir tomate. 


'Meu pai era comerciante nato e o tempo dele era totalmente consumido pelo mercado. Acabei entrando nesse espaço da produção agrícola e ajudando a desenvolver esse braço do negócio, que hoje tem praticamente a mesma importância do comercial', afirma.


Atualmente, o grupo produz tomate em cinco regiões — Jacuí (MG), Conchal (SP), Ribeirão Branco (SP),Taquarivaí (SP) e Major Vieira (SC)— somando cerca de 150 hectares de cultivo. A operação envolve aproximadamente 250 a 300 colaboradores diretos apenas no campo, além da estrutura de comercialização instalada na Ceagesp e em centros de distribuição. Kelly é responsável pela gestão da produção agrícola e integra a diretoria ao lado das irmãs, Michele e Madalena, e do tio, Paulo. 'Cada integrante da família tem uma área de responsabilidade, mas as decisões precisam ser compartilhadas. Produção, comercial e financeiro estão conectados e influenciam diretamente o resultado da empresa', explica.



Tecnologia que viabiliza a produção

Nos últimos anos, a produção de tomate passou por uma transformação tecnológica acelerada, algo que Kelly acompanha diretamente no campo. 'Se compararmos uma roça de tomate de poucos anos atrás com a realidade atual, a mudança é muito grande. Houve avanços importantes em porta-enxertos, fertirrigação, análises feitas dentro da própria roça para definir o posicionamento nutricional e também no uso de produtos biológicos', afirma.


Nesse contexto, a escolha da semente tornou-se uma decisão estratégica para garantir viabilidade produtiva. Um exemplo citado por Kelly é o tomate Turim, da TSV Sementes, que combina produtividade e resistência a doenças que historicamente desafiam os produtores. 'Hoje vivemos um momento importante no desenvolvimento de tomates resistentes a vírus como begomovírus e geminivírus. O Turim trouxe essa resistência sem abrir mão da produtividade. Antes, muitas vezes o produtor precisava escolher entre resistência ou produção', explica.


Segundo ela, esse avanço foi fundamental para manter a competitividade da cultura. 'O Turim acabou se tornando uma solução de alta tecnologia para viabilizar a tomaticultura no Brasil. Com todo o investimento que existe hoje na produção, se não houver acerto na escolha da semente, a cultura pode se tornar inviável'.



A presença feminina no campo

Kelly também observa mudanças importantes na presença feminina em diferentes etapas da cadeia do tomate, da produção à comercialização. 'Hoje as mulheres estão presentes em praticamente todos os elos do setor: na colheita, na embalagem, na venda, na reposição e também em funções técnicas. É uma participação que se tornou indispensável', afirma.


Na rotina das lavouras, ela observa que diferentes habilidades acabam se complementando no trabalho agrícola. 'Existe uma atenção aos detalhes que aparece com frequência no trabalho feminino — no amarrio, no desbrote, no cuidado com a planta. Isso não diminui a importância da força masculina, mas mostra como as diferenças acabam se somando dentro da atividade'.


Apesar dos avanços, Kelly acredita que ainda existem mudanças culturais importantes a serem discutidas para ampliar a presença feminina em funções técnicas e de liderança no agronegócio. Um dos principais pontos, segundo ela, é a divisão da dupla jornada. 'As mulheres conquistaram muitos espaços e estão disponíveis para o trabalho da mesma forma que os homens, mas ainda existem questões culturais que precisam avançar. Quando uma técnica precisa viajar para visitar roças, participar de decisões ou estudar, isso exige uma divisão maior de responsabilidades dentro de casa', afirma.


Para ela, esse é um tema sensível, mas necessário para o futuro do setor. 'Um filho precisa ser compartilhado para que uma mãe possa viajar, estudar e estar presente nas lavouras. É uma discussão delicada, mas que precisa acontecer'.



Um conselho para as próximas gerações

Ao olhar para trás, Kelly lembra que o início da carreira foi marcado por muitas dúvidas, especialmente ao sair da capital paulista para lidar com a realidade do campo. 'Sou paulistana e, quando me vi formada e responsável por lidar com roças de tomate, lembro daquela sensação de insegurança. É um ambiente muito diferente daquele que eu imaginava quando comecei', conta.


Com o tempo, o aprendizado transformou o desafio em vocação. Um dos conselhos mais marcantes veio do pai. 'Ele sempre dizia que primeiro é preciso aprender a fazer bem-feito. O gosto pelo trabalho vem depois'.


Hoje, esse é justamente o tipo de orientação que ela gostaria de ter ouvido com mais clareza no início da carreira. 'Se pudesse deixar uma mensagem para quem está começando, diria que é possível. Vai exigir dedicação e terá um custo alto, inclusive para as pessoas que estão próximas, mas vale muito a pena. Com determinação, responsabilidade e amor pelo que se faz, é possível construir uma trajetória sólida.'